Você tem dificuldade para manusear os pauzinhos (os hashis) quando vai ao restaurante japonês, mas se sente envergonhado em pedir os talheres ocidentais? Não fique! Vários itens da culinária japonesa, como o sushi, já foram adotados pelo paladar brasileiro, sendo inevitável que ocorram adaptações à nossa cultura.

De fato, no caso do sushi, a forma “abrasileirada” de comê-lo é diferente da forma original, mas isso não quer dizer que estejamos fazendo errado. “É apenas uma diferença cultural. Cada povo tem seus hábitos. O brasileiro gosta da comida mais temperada, se for comer como se come no Japão, o sabor não vai agradar”, explica Julio Ogawa, proprietário de um restaurante japonês em São Paulo (SP).

Valorizadas as diferenças, sempre vale a pena aprimorar um pouquinho nossos hábitos alimentares. O japonês consome o shoyu, por exemplo, de uma maneira mais suave que a nossa. O molho de soja tem propriedades benéficas, como a ação antioxidante, mas seu gosto pode sobressair quando usado em demasia.

“O brasileiro chega a consumir 100 ml de shoyu numa refeição. No Japão, se come uma colher de sobremesa, é uma diferença muito grande”, afirma Ogawa. Por isso, diz ele, o mais correto (e correspondente à tradição japonesa) é molhar o sushi pelo peixe, não pelo arroz, que absorve muito o líquido. Ele acrescenta que, para o japonês, o sabor do arroz é o principal no sushi, razão pela qual deve se evitar mascarar esse sabor com shoyu.

Os peixes vêm em seguida no quesito sabor. Hoje indispensáveis, até mesmo porque são campeões do gosto umami, mas no passado não faziam parte da receita original de sushi. Foram incorporados conforme avançaram as técnicas de conservação da carne do peixe. Aqui cabe uma verificação de procedência, principalmente relacionada ao tipo de peixe. Isso porque os peixes de água doce são mais vulneráveis à contaminação por bactérias, diferentemente dos de água salgada, como o atum. Entretanto, peixes de água doce criados em cativeiro, como tilápia e pacu, diz Ogawa, são mais seguros nesse aspecto.

Ogawa conta que, atentos a esse risco, os japoneses não eram muito chegados em peixes de água doce. O clássico salmão, cuja presença é quase sempre garantida nos nossos restaurantes japoneses, não era tão presente assim há até algumas décadas por ser um peixe misto (pode ser encontrado nos dois tipos de água). Uma curiosidade é que, segundo o empresário, por conta da influência de brasileiros vivendo no Japão, o salmão tem ganhado popularidade, sendo consumido com limão e gengibre, que têm propriedades bactericidas.

O empresário acrescenta que os japoneses são mais interessados em textura e sabor do pescado, ao passo que os brasileiros querem é sentir o tempero. E, por aqui, a rejeição ao wasabi (raiz forte) é grande, ao contrário de lá. A raiz forte também é uma espécie de bactericida, ideal para comer com o peixe cru, além de acelerar o nosso processo de digestão.

Agora que você já conhece as diferenças principais, pode decidir se prefere comer a nossa versão adaptada ou como um autêntico japonês. Ah, e se os hashis ainda estão muito difíceis de manusear, deixe-os de lado. Os sushis foram feitos para se pegar com a mão e até hoje essa forma é aceita e praticada por lá. O que não pode é deixar de provar essa iguaria!