Como a diversificação alimentar e o gosto Umami podem auxiliar os pacientes a não perderem este sentido

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A deficiência e o manejo nutricional, bem como as alterações no paladar no paciente com câncer foram assuntos debatidos no I Simpósio de Nutrição em Oncologia Pediátrica, evento que foi parte da programação científica do XIV Congresso Brasileiro de Oncologia Pediátrica, que ocorreu no final de novembro de 2014 em Brasília-DF.

Em uma das palestras do evento foram demonstrados alguns estudos realizados com diferentes pacientes em tratamento com câncer, os quais verificaram que as terapias utilizadas podem atuar significativamente nos receptores dos sentidos do olfato e paladar, alterando-os ou mesmo destruindo-os1,2.

Os primeiros relatos dos pacientes com alterações no sentido do paladar são a perda da sensibilidade aos gostos (disgeusia), principalmente ao doce, sensação de amargor e metal na boca, mais percebidos nos casos de tratamento quimioterápico, por conta da própria medicação e sensação de boca seca (xerostomia)3. Estes fatores fazem com que os pacientes sintam dificuldade em consumir alimentos ou mesmo consumam alimentos mais calóricos, e, como consequência há alterações nutricionais e impactos significantes na qualidade de vida. Outra implicação que foi discutida no Congresso, e que pode influenciar o paladar, é o tempo em que os pacientes ficam submetidos às dietas enterais* e parenterais**.

Para verificar a sensibilidade ao gosto Umami, duas pesquisas foram conduzidas com pacientes com câncer de cabeça e pescoço em tratamento radioterápico. Shi et al (2004)4 realizaram o estudo com 30 pacientes, onde mensurou os threshold (limiar de sensibilidade) aos gostos básicos durante diferentes ciclos de irradiação. Os resultados demonstraram que a sensibilidade ao Umami era mais pronunciada que aos outros quatro.

Já Yamashita et al (2009)5 avaliaram 52 pacientes que se submeteram a radiação durante 9 semanas de tratamento, em que constataram que os pacientes possuem sensibilidade ao gosto Umami até a terceira semana de tratamento. Após este período, ocorre um decaimento com uma leve melhora na sensibilidade após a oitava semana. Como conclusão, pode-se verificar que há sensibilidade, mas esta é limitada por conta da duração e intensidade dos tratamentos, fato que o diferenciou do estudo realizado por Shi et al (2004)4 que não avaliaram o tempo de tratamento.

No Brasil, um estudo foi realizado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP)6. Os pesquisadores realizaram o teste de sensibilidade ao gosto Umami em crianças com LLA (Leucemia Linfoide Aguda) e LNH (Linfoma não-Hodgkin) com soluções em diferentes concentrações do realçador de sabor MSG e alimentos que o contém. Foram avaliados 102 pacientes entre 6 e 15 anos.  A maioria dos pacientes detectou o gosto Umami a partir da segunda concentração das soluções oferecidas no teste, nas duas sessões a que foram submetidos. Isto pode vir a concluir que as crianças são sensíveis a este gosto e a utilização desse componente nas concentrações tecnológicas recomendadas (<1%) em diferentes preparações e uma orientação alimentar adequada poderia colaborar para a melhora do estado nutricional das crianças em tratamento contra estes tipos de câncer.

Estudos realizados no Japão demonstraram que idosos hospitalizados, que também possuem alterações no paladar e xerostomia, um aumento significativo da salivação, quando estimulados com soluções de glutamato monossódico em comparação com soluções de ácido cítrico7,8,9. O aumento da salivação fez com que os idosos se alimentassem melhor e ainda melhorassem o estado nutricional10. Esta estratégia também poderia ser utilizada em paciente com câncer para reduzir a sensação de boca seca, mas ainda não há nenhuma pesquisa que relate o aumento da salivação com esta população.

Mais estudos são necessários para verificar a sensibilidade ao quinto gosto, bem como o aumento da salivação e aceitação de alimentos fontes de Umami em crianças e adultos com diferentes tipos de câncer. Pelos poucos estudos que já foram publicados, pode-se verificar que a diversidade no cardápio, bem como o estímulo constante das sensações gustativas podem auxiliar os pacientes a não perderem o sentido do paladar, já que este é extremamente importante para melhora do estado nutricional da qualidade de vida durante e após o tratamento.

*Nutrição enteral: terapia nutricional ou dieta complementar administrada através da boca, sonda nasal ou ostomia (cirurgia que consiste na abertura de um órgão oco para introdução da alimentação ou saída de fezes e urina).

**Nutrição parenteral: administração de nutrientes através da via intravenosa.

1. Cohen J., Laing D. G., Wilkes F. J., Chan A., Gabriel M., Cohn R. J. Taste and smell dysfunction in childhood cancer survivors. Appetite 2014; 75: 135-140.

2.  Sanchez-Lara, K., Sosa-Sanchez, R., Green-Renner, D., Rodriguez, C., Laviano, A., Motola-Kuba, D., et al. Influence of taste disorders on dietary behaviors in cancer patients under chemotherapy. Nutr J. 2010: 9-15

3. Epstein J. B., Barasch A. Taste disorders in cancer patients: Pathogenesis, and approach to assessment and management. Oral Oncol. 2010; 46: 77-81.

4. Shi H., Masuda M, Umezaki T, Kuratomi Y, Kumamoto Y, Yamamoto T, Komiyama S. Irradiation impairment of umami taste in patients with head and neck cancer. Auris Nasus Larynx 2004, 31 (4): 401-406.

5. Yamashita H, Nakagawa K, Hosoi Y, Kurokawa A, Fukuda Y, Matsumoto I, Misaka T, Abe K. Umami taste dysfunction in patients receiving radiotherapy for head and neck cancer. Oral Oncol. 2009; 45 (3): e19-e23.

6. Gringerg-Elman I., Pinto e Silva M. E. M. Caracterização do consumo alimentar e análise de detecção de umami em crianças portadoras de câncer. Tese (Doutorado em Nutrição em Saúde Pública) – Faculdade de Saúde Pública/USP, Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, 2011.

7. Hayakawa Y., Kaway M., Sakay R., Toyama K.; Kimura Y., Uneyama H., Torii K. Umami sensitivity of elderly females: Comparison with middle-age females. JPN J Taste Smell Res. 2007, 14: 443-446.

8. Hayakawa Y., Kaway M., Torii K., Uneyama H. The effect of umami taste on saliva secretion. JPN J Taste Smell Res. 2008, 15: 367-370.

9. Uneyama H, Kawai M, Sekine-Hayakawa Y, Torii K. Contribution of umami taste substances in human salivation during meal. J Med Invest. 2009; 56 Suppl: 197-204.

10. Tomoe M, Inoue Y, Sanbe A, Toyama K, Yamamoto S, Komatsud T. Clinical trial of glutamate for the improvement of nutrition and health in the eldery. Ann NY Acad Sci. 2009; 1170: 82-6.