O glutamato tem papel fundamental para o crescimento e desenvolvimento apropriados do feto. 

 

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Dentre tantas funções importantes já discutidas no Portal, o glutamato, além de ser a principal substância determinante do gosto umami, juntamente com a glutamina (aminoácido não essencial produzido através do glutamato e amônia) estão também associados com o bom desenvolvimento do feto, sobretudo na fase inicial da gestação.

Ainda que pouco estudado até agora, sabe-se que o metabolismo e o transporte de glutamato e glutamina apresentam características específicas, as quais demonstram a importância da interação e comunicação entre a placenta e o fígado fetal para o controle do abastecimento e da concentração de glutamato/glutamina disponíveis para o feto.

Sabe-se que o fígado do feto é o fornecedor dominante de glutamato, ainda que a placenta possa diretamente utilizar glutamato proveniente da mãe. Em paralelo, a placenta tem dentre suas funções o transporte da glutamina produzida por ela mesma, ou retirada do sangue materno para a circulação fetal, e o subsequente sequestro do glutamato produzido pelo fígado do feto. Essa “troca” ou interação é que determina o ciclo placentário-fetal de glutamina-glutamato, o qual é essencial para o bom desenvolvimento tanto da placenta como do feto.¹

Portanto, inicialmente, o ciclo é marcado pela síntese de glutamina pela placenta, e também pela sua absorção da circulação materna. A glutamina então é liberada para a circulação fetal (absorção umbilical) e absorvida pelo fígado fetal, onde cerca de 45% de seus carbonos participarão da produção do glutamato que após sintetizado, é devolvido à circulação fetal e absorvido pela placenta. Somente 6% de carbonos do glutamato “sequestrado” pela placenta são convertidos em glutamina; os carbonos restantes são convertidos em CO2.²,⁴

Na placenta, o elevado nível de atividade das transaminases de cadeia ramificada também contribui para a produção de glutamato, através da formação de seu ceto ácido oxoglutarato. Assim, o fornecimento placentário de glutamato deriva tanto da sua reabsorção a partir da circulação fetal, quanto da sua produção na placenta, associado com a transaminação dos aminoácidos de cadeia ramificada, como por exemplo, a leucina.

Os transportadores de glutamato EAAT1, EAAT2, EAAT3, EAAT4 e EAAT5 (transportadores de aminoácidos excitatórios 1, 2, 3, 4 e 5) são os principais componentes do ciclo glutamato-glutamina, e responsáveis pelo transporte ativo de glutamato sobre a membrana celular.³

De maneira semelhante ao que ocorre no intestino, grande parte do glutamato na placenta é utilizado como combustível metabólico, e como substrato para gerar NADPH (coenzima aceptora de elétrons) para a síntese dos ácidos graxos e de esteroides, poupando a glicose para uso do feto. Assim, de certa forma, a saída de glutamato a partir do fígado fetal substitui a produção de glicose hepática, por ser o próprio, a principal fonte de energia.²

Portanto, fica clara a importância dos dois aminoácidos para a integridade do desenvolvimento do feto, tanto com relação ao fornecimento de energia para os diversos processos metabólicos envolvidos nessa fase gestacional, quanto à síntese de substâncias fundamentais como as proteínas e esteroides e a regulação e manutenção do sistema de proteção do organismo.

 

Referências

¹ BATTAGLIA FC. Glutamine and glutamate Exchange between the fetal liver and the placenta. J Nutr. 2000, 130: 974S-977S.

² BATTAGLIA FC et al. Glutamine-glutamate exchange between placenta and fetal liver. Am J Physiol. 1995, 268: 705-711.

³ GRAAN PNE et al. Distribution of Glutamate Transporters in the Human Placenta. Placenta Journal, 2004: 489-495.

⁴ ORTIZ, TBA. Glutamato: aspectos bioquímicos. In: Reyes FGR. Umami e glutamato: aspectos químicos, biológicos e tecnológicos. São Paulo: Editora Plêiade, 2011. 164p.