Estudo sobre glutamato presente no leite materno indica que umami está relacionado com a proteção, o desenvolvimento e o crescimento do intestino do bebê.

 

Mom feeds the baby breastfeeding

A ciência é clara sobre a importância do aleitamento materno nos primeiros seis meses, para o bom desenvolvimento do bebê. Isso porque ele oferece os nutrientes necessários, como também proteção imunológica. Parte destes benefícios é devido ao glutamato. A composição do leite materno, diferente de outras espécies de mamíferos é específica para o bebê, e feita para suprir todas as demandas nutricionais durante os primeiros meses de vida.¹

O leite materno contém componentes imuno-moduladores que protegem o bebê de infecções e organizam a resposta imunológica no intestino, que pode ser desencadeada pela ingestão de alimentos e/ou quaisquer substâncias que não o leite materno.¹

Também são encontradas no leite substâncias que formam o Nitrogênio não Protéico (NNP). Esses NNPs incluem pequenos peptídeos, uréia, creatinina, ácidos nucléicos, aminoácidos livres, entre outros elementos que influenciam o crescimento e desenvolvimento do intestino do lactente.¹

Dentre os aminoácidos livres, o glutamato, determinante do gosto Umami, é um dos aminoácidos não essenciais, ou seja, que nosso próprio organismo produz, e é o mais abundante na natureza. Sua concentração no leite materno aumenta após os três primeiros meses de aleitamento, chegando a constituir aproximadamente 50% do total dos aminoácidos livres. ¹

Esta alta concentração do glutamato é responsável por funções fisiológicas fundamentais ao lactente. Dentre elas, o papel de fornecer energia para as células epiteliais do intestino.²

Como prova da importância desse aminoácido, mesmo em períodos de jejum prolongado, quando as concentrações dos aminoácidos livres do leite materno diminuem, o glutamato e a glutamina (aminoácido não essencial produzido através do glutamato e da amônia e também presente no leite) se mantêm, o que faz com que exista algum tipo de mecanismo que regula e privilegia sua síntese e liberação, para que o lactente não fique privado de seus inúmeros benefícios.²

Porém, para que todas as substâncias e nutrientes do leite desempenhem suas funções, é necessário que o trato gastrointestinal do lactente esteja capacitado a recebê-los, digeri-los e absorvê-los. Em outras palavras, o intestino do bebê deve estar pronto ao nascer. Para tanto, ainda no período fetal, o líquido amniótico oferece nutrientes, fatores de crescimento, hormônios, células imunes, oligossacarídeos não digeríveis, entre outros fatores que proporcionam o crescimento e que irão modular o desenvolvimento estrutural e funcional do intestino do bebê.³

Uma das funções das células que revestem o intestino é prover segurança contra micróbios e certos patógenos presentes na luz intestinal, impedindo que eles entrem em contato com a parede do intestino. Para isso, existe uma espécie de barreira, formada por células epiteliais unidas fortemente entre si, denominada “tight junctions”. A ação dessa barreira associada à ação do muco secretado na luz intestinal irá impedir que o conteúdo indesejado entre no organismo.¹

Diante desse cenário, algumas pesquisas observam que a glutamina, proveniente do glutamato, atua tanto na produção do muco, quanto na manutenção da tight junctions. Dessa forma, o glutamato age auxiliando a função protetora do intestino.²

Existe ainda outro componente do sistema imune localizado sob todo o tecido gastrointestinal desde a boca até o ânus. É o tecido linfático denominado GALT (do inglês: gut-associated lymphoid tissue). É nesse tecido que se inicia a resposta imunológica e o processamento dos antígenos. O glutamato exerce influência sobre o GALT, potencializando seus efeitos.¹

Além disso, o glutamato também participa da síntese de glutationa, um tripeptídeo transportador de aminoácidos com função antioxidante. Em situações de estresse intestinal, o glutamato irá atuar, por exemplo, na eliminação de parte dos radicais livres e na proteção contra danos funcionais e estruturais.¹

Portanto, fica cada vez mais claro que o glutamato, principal responsável pelo gosto umami, além de dar um toque especial no sabor dos alimentos, é fundamental para diversos processos metabólicos envolvidos desde o desenvolvimento, até a funcionalidade e manutenção intestinais. Dessa forma, ele contribui com o bem estar e a saúde do nascimento à vida adulta.

 

Referências

¹ Baldeon M, Flores N. O glutamato no leite materno e no desenvolvimento do intestino do lactente. In: Reyes FGR. Umami e glutamato: aspectos químicos, biológicos e tecnológicos. São Paulo: Editora Plêiade, 2011. 195p

² Li N, Lewis P, Samuelson D, Liboni K, Nue J. Glutamine regulates Caco-2 tight junction protein. Am J Physiol Gastrointest Liver Physiol. 2004; 287:729-33.

³ Burrin DG, Stoll D. Key nutrients and growth factors for the neonatal gastrointestinal tract. Clin Perinatol. 2002; 29:65-96